Crônicas dos Campos Gerais: ‘Xuxa do Calçadão’

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25 de março de 2020 12:40

Da Redação


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Marivete Souta é Mestre em Estudos da Linguagem pelo Programa de Pós-graduação da Universidade Estadual de Ponta Grossa Foto: Divulgação
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O texto de hoje é da professora Marivete Souta. Boa Leitura!

Hoje, ao passar no cruzamento da esquina da avenida Vicente Machado com a rua Coronel Dulcídio, o sinal fechou, olhei para o lado e senti falta do sorriso de uma figura carismática e peculiar que vinha até à janela de meu carro. Aquele sorriso sempre levava meus trocados.

 No calçadão, nos anos 90, uma moça trajando roupas chamativas como as de sua musa inspiradora – Xuxa Meneguel, a rainha dos baixinhos – iniciou sua trajetória como ícone desta cidade dançando ao som de Ilariê, entre outros sucessos.

Talvez meu olhar de poeta é que me fazia tantas perguntas ao observar aquela moça: Quem é ela? Tem família? Onde dorme? Tem um lugar para voltar quando o manto negro da noite cobrir a cidade?

Essa mania de ver como se fosse a primeira vez o que de fato ninguém vê é coisa de poeta, como disse o escritor Otto Lara Resende, porque nossos olhos se gastam, no dia a dia, opacos. É por isso que acaba se instalando nos corações o monstro da indiferença.

Mas um dia o cruzamento silenciou, eu senti falta da alegria que me acostumei a encontrar ali. Passaram-se dias, semanas, meses, até que vi no noticiário que a Xuxa do Calçadão estava doente, que a família a mantinha encarcerada em casa para preservá-la, pois ela se perdera algumas vezes nos últimos tempos. Foi assim que soube que a Xuxa do Calçadão era Dirce Maria Alves, mãe, tinha três filhas.  Agora soube até sua idade: 65 anos, e que morava no núcleo Cristo Rei. Mas nunca saberei o que sentia, pensava, sobre seus sonhos e o que a impeliu a dançar e pedir esmolas.

A mulher que ficou conhecida como Xuxa do Calçadão era a personificação da liberdade, pois essa personagem ponta-grossense agia segundo seu livre arbítrio, de acordo com sua vontade

Ela faleceu após ser diagnosticada com o Mal de Alzheimer, doença degenerativa que atinge as funções intelectuais. E como uma artista, ao som de aplausos, o cortejo fúnebre seguiu até o cemitério. Dirce, a Xuxa do Calçadão, nunca será esquecida, continua a inspirar poetas e escritores. Diferentemente do porteiro, personagem de Otto Lara Resende, que para ser notado teve que cometer a descortesia de morrer, Xuxa do Calçadão, como artista que foi, despertou curiosidade na população quando desapareceu das ruas de Ponta Grossa, a ponto de repórteres procurarem saber de seu paradeiro. Por quê? Porque um artista é singular, faz falta e nunca morre. Xuxa do Calçadão não morreu, se tornou história.


Texto escrito no âmbito do projeto Crônicas dos Campos Gerais da Academia de Letras dos Campos Gerais 

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