Crônicas dos Campos Gerais: ‘O caminho como destino’

Mix

15 de julho de 2020 13:00

Da Redação


Relacionadas

Seu Jorge anuncia live com músicas de David Bowie

Costella & Cia é destaque na oferta de assados em PG

Os desafios dos museus em tempos de pandemia

Vestidos: Elegância e estilo para todas as ocasiões
Gigaleak: o controverso vazamento da Nintendo
Nova versão de 'Mulan' será lançada diretamente no Disney+
Crônicas dos Campos Gerais: ‘O menino que vi’
Ederson Claudio Correia Oliveira é contador e morador de Ponta Grossa. Foto: Divulgação
PUBLICIDADE

Texto de autoria de Ederson Claudio Correia Oliveira, contador e morador de Ponta Grossa

Acordei disposto pra uma caminhada naquele sábado de outono. Prefiro acordar cedo num sábado bonito do que encher a cara numa sexta à noite. Pena que a segunda sentença é a que quase sempre prevalece. Alguns místicos afirmam que a alvorada é momento de maior energia no planeta Terra. Ainda que minha sensibilidade seja latente em assuntos metafísicos, tendo a concordar com essa afirmação. Sinto meu humor diferente e uma enorme gratidão por estar vivo.

Quanto a caminhar, sempre gostei. Gosto de andar pra pensar na vida ou pra simplesmente não pensar em nada. Uma meditação em movimento guiada pelos sons dos passos batendo no asfalto ou na terra. Thoreau passou dois anos vivendo na floresta. Eu passaria facilmente esse tempo caminhando por aí sem destino. Gosto do cheiro do mato, de ouvir a voz da natureza, que pode ser apenas o silêncio. De fugir um pouco dessa vida automatizada. Caminhar sozinho é bom pra conversar consigo mesmo. Pra ouvir a voz interior. Pra não enferrujar os joelhos. Pra irrigar com um pouco de endorfina um cérebro ansioso. Talvez a estrada seja como a vida, às vezes: o caminho é tão satisfatório quanto o destino.

Arrumei uma pequena mochila com itens básicos. Peguei um ônibus no centro e fui até o terminal de Uvaranas. Depois a pé pela estrada Pery Pereira Costa. Uma linda via, mas um pouco perigosa, visto a falta de acostamento. É engraçado como uma caminhada sem porquê atrai atenção de curiosos. Contrariando o senso-comum de que o ponta- grossense é introvertido e pouco sociável, muitas pessoas param gentilmente pra oferecer carona. E não aceitam se você disser que está simplesmente andando a esmo. É necessário ter um objetivo. Às vezes são tão insistentes que invento estar pagando promessa. É o único jeito de me ver livre do cordial e religioso cidadão.

“Você é meio hippie” sentenciou certa vez um amigo. Que seja! Gosto de pensar que sou um pouco mesmo. Um hippie, um beatnik perdido em 2020. Uma alma desencontrada numa cabeça moldada para servir o establishment. Cansado de manter um trabalho que não gosta pra comprar coisas que não precisa, como naquele filme do Fincher baseado no romance do Chuck Palahniuk.

Naquele sábado eu parei no Capão da Onça. Era quase meio-dia. O lugar estava vazio. Tomei lentamente duas cervejas à sombra de uma árvore nativa ao lado de uma pequena queda d’água. Pra quem perdeu o hábito de rezar, aquele era meu pai-nosso.

Texto produzido no âmbito do projeto Crônicas dos Campos Gerais da Academia de Letras dos Campos Gerais.

PUBLICIDADE

Recomendados