Crônicas dos Campos Gerais: ‘Secos e molhados’

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22 de julho de 2020 09:40

Da Redação


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Sueli Fernandes é filha da escritora, trovadora e artista plástica Amalia Max, formada em História pela UEPG e publicou seu primeiro livro em 2019. Foto: Divulgação
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Texto de autoria de Sueli Maria Buss Fernandes, professora aposentada de Ponta Grossa

Na tarde morna e preguiçosa me recosto na rede pendurada em galhos de amoreira, fecho os olhos e me transporto ao passado; revisito minha infância de múltiplas facetas. A igreja e suas festas ruidosas, alvorada festiva com foguetório às seis da manhã de domingo acordando os fiéis. As brincadeiras de roda, pipas, bilboquês, amarelinha, que se harmonizavam com crianças despreocupadas. Brincadeiras que vivem no porão da saudade.

O pensamento errante, sem direção definida, percorre ruas de chão batido onde pular corda levantava poeira, mas era diversão garantida. Vai pelas trepadeiras dos jardins da vizinhança; o ponto de ônibus na rua principal. O armazém de secos e molhados do seu Inácio na esquina da minha casa, que provia todo o bairro, imprescindível para que a vida seguisse seu curso.

Adentro ao armazém. Um longo balcão de madeira em forma de L, lavado à noite pela esposa. Crianças na pontinha dos pés, agarradas ao balcão, com os olhos fixos na vitrine de doces que aguavam a boca. Suspiro, paçoquinha, cocada, pé de moleque, que sobreviveram até as festas juninas de hoje.

O armazém de secos e molhados vendia de tudo. Para dor havia Cibalena. Para mal-estar, amoníaco. Agulha, colchete, elástico e botão não faltavam. Cereais a granel entregues ao freguês em cartuchos de papel, bebidas, tubaína, capilé, garrafas de leite com rolhas de cortiça, pepino azedo caseiro e pão d'água que, por sua estética peculiar, era vendido até em metades. Comprar dois pães e meio era possível. Num cabo de vassoura na transversal os “salgados” ficavam expostos.

Na ponta do balcão, mais ao fundo, alguns homens naquele que era o ponto de encontro para tomar uma cachacinha, conhaque ou Fernet depois do trabalho. As comadres comentando no portão: Sabe que eu vi o marido da Lurdes bebendo no armazém? Coitada! Com aquele barrigão de oito meses e ele nem aí! Ainda bem que sempre leva uma mistura para a janta!

Uma menina sai do armazém equilibrando um copo cheio de óleo de soja. Derrama um pouco na barra da saia, molha a ponta dos pés. A mão desliza, troca de mão, respinga, mas chega em casa com o suficiente para o molho da maionese de domingo.

O sol se despede do dia; pouco a pouco se acomoda no poente. A nostalgia dá lugar à realidade; me aconchego mais à rede que me abraça e me entrego nos braços do acaso.

Texto produzido no âmbito do projeto Crônica dos Campos Gerais da Academia de Letras dos Campos Gerais.

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