Crônicas dos Campos Gerais: ‘O menino que vi’

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05 de agosto de 2020 10:54

Da Redação


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Rosana Justus Braga é formada em Letras Português-Francês pela Universidade Católica do Paraná. Foto: Divulgação
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Texto de autoria da revisora Rosana Justus Braga

Na primeira vez que o vi, teria minguados três ou quatro anos, e vinha na esteira dos pais, catadores de papel. Com ele, alguns outros, todos nascidos do casal esquálido que puxava a procissão de devotos mirins. Regularmente surgiam no bairro, à cata do lixo limpo, como diziam.

            Ele, o menorzinho, entrava na loja e puxava a ladainha com sua voz de pássaro canoro. Levava, além de caixas e papéis, minha gratidão sem medida, pois me permitia reparar injustiças com pequenos mimos, algumas roupas aposentadas, brinquedos cansados e um convite para ir à lanchonete do outro lado da rua.

            Ficávamos ali, enquanto a família se espalhava catando o que pudesse carregar. Em questão de segundos, ele escalava a banqueta de pernas altas, apoiava-se no balcão com os cotovelos, pedia logo uma coxinha e fartava-se de ketchup e mostarda.

Eu registrava detalhes, os pés descalços balançando no ar, a expectativa ansiosa, a avidez da boca cheia, o inusitado bigode, o olhar de criança ainda intacto, milagrosamente.

Quantas vezes coloquei de lado minha rotina de trabalho pelo prazer de dividir com ele o balcão da lanchonete. 

            Foram muitas, incontáveis, até que notei a penugem em seus lábios e me dei conta do adolescente à minha frente. O pardalzinho crescera, já vinha sozinho no ofício de catar papel, empurrando ele próprio o carrinho muitas vezes recauchutado. Era o menino de sempre, ainda que mudado. Vinha buscar um pouco do muito que lhe faltava.

             Mas eis que um dia, ele me surpreende com uma visita inesperada: uma garota esmirrada ao seu lado e um bebê recém-nascido. “Minha esposa” – anunciou, com gravidade na voz. Mal pude acreditar.

Desviei o olhar pasmo para a menina encardida que me sorria, e logo para o embrulho de parcos panos que ela segurava como se fora a boneca que nunca tivera. Ele, orgulhoso, saboreava meu espanto.

            Desconcertei-me. Gaguejei palavras tolas, tímidos votos de saúde, prosperidade e vida longa, vejam só, ao desvalido casal; ao pardalzinho adormecido, que não se sabia semente plantada em solo adverso, fiz reza forte no meu silêncio.

Depois, fiquei a vê-los descer a rua, curvados sobre o menino, iluminados por uma alegria que eu não era capaz de entender. 

Texto produzido no âmbito do projeto Crônica dos Campos Gerais da Academia de Letras dos CamposGerais.

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