Crônica: “Quando morremos, morrem as coisas?”

Mix

23 de setembro de 2020 11:00

Da Redação


Relacionadas

Orlando Drummond, o Seu Peru faz 101 anos neste domingo

Acessórios trazem referências variadas na moda verão 2021

Banda Índigo de PG lança novo videoclipe

Paraquedismo traz desafio nas alturas para praticantes
Aluna faz homenagem para os professores
Gusttavo Lima copia texto da internet para falar da separação
Crônicas dos Campos Gerais: “O caçador de borboletas”
Juliano Lima Schualtz, é estudante de História pela Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG) e militante do Coletivo Negro Ilê Aiyê, na mesma universidade. Desenvolve estudos sobre Literatura Brasileira Contemporânea. Foto: Divulgação
PUBLICIDADE

Texto de autoria de Juliano Lima Schualtz, estudante de História da UEPG

Os velórios em cidade pequena sempre seguem uma ritualística simples. Mesmo o morto em vida sendo pouco aplaudido, quando defunto já se torna celebridade ao ser anunciado na rádio local. Os familiares próximos e distantes, os amigos próximos e distantes, os inimigos próximos e distantes, as viúvas próximas e distantes, os cães próximos e distantes, os bêbados próximos e distantes. Todos se coagulam na comunhão sepulcral que antecede o enterro.

Nos transcorrer do velório, as estórias com o falecido ganham vida. É o momento de rememoração e fabulação de uma vida que pulsa nos entes próximos. Alguns chovem na pupila e outros para não chover resolvem rir com alguns causos: palavra-guarda-chuva. De qualquer modo, é sempre um momento de inquietação e luto, cada qual à sua maneira.

Enterrar os mortos é essencial para a manutenção sentimental dos vivos. Visualizar o defunto contornado pelas flores e sua face pálida inscrevendo a presença da ausência na fotografia eterna e precisa antes das pás de terra cobrirem o caixão. Depois, bem, depois cada defunto é machadiano do seu jeito.

Mas...recordo de um relato... estipulado por um morador de Tibagi, contou-me assim:

“Quando o avô do Afonso veio a fenecer, ele me relatou o último momento com o senhor Isaías. Ambos não se viam com constância, afetos mutilados e vidas em encruzilhada. Contou-me que o velho cão passou a latir convulsivamente lamentando a ausência carinhosa das mãos rugosas de Isaías. As unhas do gato caíram, arranhou muito a cadeira que sentava o Isaías. As cordas da viola: rebentaram. Só as unhas de Isaías podiam tocá-las. A garrafa de aguardente: secou. Só os lábios pardos de Isaías bebericavam aquele líquido ardido. A gaita de boca perdeu a sonoridade, apenas o sopro de Isaías conseguia tragar som daquele instrumento. As flores e mandiocas não mais cresceram, as flores recusavam outras pupilas e as mandiocas negavam outros músculos. No último momento, Isaías, de pele crepuscular: anoiteceu.”

Texto produzido no âmbito do projeto Crônicas dos Campos Gerais da Academia de Letras dos Campos Gerais.

PUBLICIDADE

Recomendados