Crônicas dos Campos Gerais: “A penteadeira”

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02 de dezembro de 2020 11:11

Da Redação


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Sueli Fernandes é professora aposentada nascida em Ponta Grossa e filha da escritora, trovadora e artista plástica Amalia Max. Foto: Divulgação
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Texto de autoria de Sueli Maria Buss Fernandes, Professora aposentada de Ponta Grossa

Luísa, ainda criança, veio da Rússia para o Brasil com sua família. Início do século XX. Pedro, aos doze anos, fez o mesmo trajeto com seu irmão um pouco mais velho. Os dois meninos jamais voltaram a ver sua família. Todos eram imigrantes do Volga, os chamados alemães-russos. Nos Campos Gerais o destino se fez Cupido. Vó Luísa e Vô Pedro foram flechados. Parceiros de vida até a morte. Como carpinteiro, cada tábua, cada sarrafo que pregava era o sustento dos onze filhos que tiveram. Conservavam a fé na leitura diária da bíblia, em alemão, na ponta da enorme mesa da cozinha. Um banco de madeira atrás dela e cadeiras com assento de palha na frente. O fogão a lenha cimentado com “vermelhão” completava o ambiente. Nas datas festivas o espaço ficava congestionado de filhas e noras, de avental, ajudando a preparar pratos da culinária alemã e brasileira. Do forno de pedra saíam fumegantes carnes assadas e cucas de uva.

Os homens rodeavam a mesa da sala jogando cartas e tomando “schnaps” para umedecer seus brados ao vencer uma rodada de truco. As crianças brincavam no quintal. Ou seria jardim? O tapete verde formado por alfaces e repolhos era salpicado de cores vivas. Uma roseira aqui, uma hortênsia ali, junquilhos margeando os canteiros. Costume europeu, eu penso.

Antes de comer, a oração de mãos postas. Depois do almoço as traquinagens das primas em conluio. No quarto do casal, móveis de imbuia entalhada e envernizada, a cama muito alta, travesseiros e acolchoados de penas de ganso. Com três espelhos bisotês ovais, a penteadeira convidava-nos a fazer arte. Calados refletiam nossa imagem travessa. A maquiagem da Vó consistia numa caixa de pó-de-arroz Cashmere Bouquet, um batom e o blush pêssego para colorir as maçãs do rosto. Cara pintada, saíamos do quarto de fininho para não sermos flagradas pelas tias que conversavam na cozinha, já sem os aventais.

Eu amava aquela penteadeira antiga e sua banqueta com pernas no estilo Luís XV e almofada de veludo! Aquele móvel tinha alma, falava comigo! A vida viveu seu curso e, quando os avós fizeram a passagem, ela me coube como herança. Na memória olfativa, o suave perfume do pó-de-arroz. O verniz um pouco descorado, os espelhos manchados pelo tempo. No entanto a lembrança não tem manchas. É límpida como os olhos verdes daquela russinha batalhadora que seria nossa matriarca. Uma relíquia que é parte da minha história, alinhavada à história dos meus antepassados.

Texto produzido no âmbito do projeto Crônica dos Campos Gerais da Academia de Letras dos Campos Gerais.

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