PLATAFORMAS


EDITORIAS


SEÇÕES


PROJETOS


INSTITUCIONAL

Crônicas dos Campos Gerais: ‘Simples e bom’

Mix

13 de janeiro de 2021 12:00

Da Redação


Relacionadas

Mix de cores e texturas para um outono/inverno elegante

Por que o veganismo não é apenas uma modinha?

Crônicas dos Campos Gerais: ‘No fim da trilha’

Nego Di sobre Karol: 'Ajudou a acabar com a minha vida'
Karol Conká é ‘tombada’ com recorde de rejeição: 99,17%
Gueg PR lança clipe ‘Planeta Vermelho’
Veja como votar neste ‘paredão’ do BBB21
Rosana Justus Braga é Formada em Letras Português-Francês pela Universidade Católica do Paraná. Foto: Divulgação
PUBLICIDADE

Texto de autoria de Rosana Justus Braga, revisora de Ponta Grossa

As férias eram na casa dos avós, um retorno feliz ao ninho. O alvoroço começava logo na chegada, as saudades se expandindo, os avós se esmerando, os primos surgindo de todo lado. Sem falar nas tias-avós, a história não seria perfeita sem elas.

Do outro lado da rua, havia um casarão centenário que desafiava o tempo e meus temores.  Era de esquina, assobradado, as janelas altas dando direto na calçada. Viviam lá as últimas sobreviventes de uma família de raízes, a velha viúva e sua única filha solteira.

A tal filha, que já passava bem dos cinquenta, tinha por gosto aterrorizar as crianças.  Seu prazer era ocultar-se por trás das pesadas cortinas de veludo e espiar por entre as dobras, até ser notada.

O terrível é que ela se fantasiava, ocultava-se sob máscaras, perucas, chapéus, transformava-se, enfim, para despertar nossos piores medos.

Ora uma bruxa esquivando-se por entre os panos; ora um Papai Noel extemporâneo, espiando pelas frestas; ou ainda uma Branca de Neve dos piores pesadelos, menina-velha, aparecendo nesta ou naquela janela, rindo por trás da vidraça. Correria e gritos de pavor.

A vizinha usava de astúcia e só aparecia assim, transfigurada, de vez em quando; em geral, quem costumava estar na janela era ela própria, dona Adelaide, o riso largo de matrona italiana, confundindo, deliciada, o bom senso das crianças. 

Por isso, passávamos de viés, sempre pelo outro lado da rua, cheias de um medo curioso, o olho querendo ver, o medo dificultando, o casarão da esquina cristalizando-se na memória para sempre.

Voltar à cidade natal sempre teve sabor de novidade para mim. A mais deliciosa era o apito do sorveteiro descendo a rua. Era o tempo de correr e buscar uns trocados com a avó, depois escolher, creme ou framboesa? Dúvida atroz. Sempre escolhia um, pensando no outro. No dia seguinte, invertia, sábia solução.

Tudo simples e bom. O tio Tonico e sua carpintaria, tia Antônia e o cachorro Veludo, tia Carmelina com seus passes milagrosos, a vó Sotinha e os chinelinhos de pano, a fábrica de fogos, o mendigo Zorico.

Quantas lembranças mais poderiam brotar deste saco sem fundo da memória? Melhor não cutucar a onça com vara curta, diria o avô com seu conhecimento da vida.

E eu, boa aluna que sempre fui, trato de fechar depressa esse bornal de surpresas, antes que a onça acorde e meu avô venha me dizer, na calada da noite:

─ Eu avisei!... 

Texto produzido no âmbito do projeto Crônicas dos Campos Gerais da Academia de Letras dos Campos Gerais.

PUBLICIDADE

Recomendados