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Biografia dos meus pés

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20 de outubro de 2021 10:00

Da Redação


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Crônicas dos Campos Gerais: Biografia dos meus pés

Pequeninos, rosados e enrugados, eles chegaram. Aos poucos, mais rechonchudos, menos frágeis, pisoteavam a barriga da mãe e das avós quando, amparada pelas axilas, tentavam manter-me ereta, provocando risos que surgiam espontâneos e fartos. Meus pezinhos de criança palmilharam o trajeto de casa até o grupo escolar Júlio Teodorico, meias soquete e tênis, por anos seguidos. Aos domingos iam ao circo do Nhô Bastião, ao parquinho da praça ou subiam na roda gigante, em ocasiões especiais. Já usavam tênis maiores, faziam trajetos mais longos pelos corredores do Regente Feijó, atravessando a praça e rezando uma rápida Ave-Maria na Igreja do Rosário.

O tempo trouxe a juventude e com ela a permissão para usar saltos altos. Horas de ensaio com um livro sobre a cabeça buscando usá-los com elegância. Os pés se acomodaram muito bem dentro deles, sustentavam o corpo com leveza, dançaram valsas e boleros. Nus, pisaram a areia da praia, sentiram o frescor da água do mar. Andaram pelos bosques e campinas nos piqueniques de fim de semana, correram até o ponto de ônibus chegando quase sem fôlego até ele, para evitar atraso no trabalho.

O namoro, no banco em frente à Igreja São José nas tardes de domingo, se tornou mais sério e meses depois, vestida de noiva, meus pés desfilaram sobre o tapete branco até o altar.

Pés adultos enroscados em outros pés, o encontro de corpos e almas à procura do aconchego, na quentura da chama ardente do amor. As ruas da cidade passaram a sentir meus passos com um par de pezinhos ao lado dos meus, depois mais um par do outro lado. Era a vida que seguia em frente, se desenrolava, também andava. Vieram os passos céleres pelas escadarias da universidade. Havia pressa!  Aconteciam ao mesmo tempo em que davam aulas, iam à feira, às reuniões do colégio, lavavam, passavam, preparavam o jantar, mamadeiras, lancheiras... Estiveram em terras longínquas onde nunca cogitaram estar, terras com outros idiomas, costumes diversos, proveitosas andanças pelo mundo. E os pés, incansáveis, nunca me abandonaram. Foram eles que me colocaram na posição vertical e me conduziram pelos caminhos que a vida traçou. Após o fim, eles é que estarão na vertical, voltados para o firmamento, orgulhosos de sua jornada, de terem sido meu esteio durante uma vida inteira.

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