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Crônicas dos Campos Gerais: A voz do silêncio

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27 de outubro de 2021 16:00

Da Redação


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Rosana Braga, é Formada em Letras Português-Francês pela Universidade Católica do Paraná. Tem curso de Mestrado em Teoria da Literatura nesta mesma Universidade. Curso de Francês pela Aliança Francesa de Curitiba, obtendo o diploma de Nancy. Foto: Divulgação
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Crônicas dos Campos Gerais: A voz do silêncio

De tudo, o que mais lembro é o silêncio da tarde, a sinfonia de insetos lá fora, o ressonar do avô no quarto ao lado, o relógio da sala a contabilizar o tempo. Na hora da sesta a rua também dormia seu sono breve, e a casa seria a própria morte, não fosse o ressonar do avô.

No quarto ao lado, a vida pulsava no peito da menina que se fazia de morta, os sentidos todos despertos, à espera do instante da ressurreição.

De repente, um tilintar na cozinha, um ruído de água na torneira, um avivar o fogo, logo o cheirinho de café coado invadiria os quartos e a vida voltaria a pulsar. Morte e renascimento diários era o que eu via na casa dos avós, nas férias escolares.

Gosto de pensar que a cidade natal dorme dentro da gente, como se fora a sesta da tarde à espera do que seja capaz de despertá-la.

O que me faz pensar em Proust, que viu o passado brotar de sua xícara de chá. A cidade, a infância, as pessoas, mas antes a emoção avassaladora até entender o que se passava, chegar na essência de tudo, reencontrar ali um tempo em que já nada mais subsistia, após a morte dos seres amados, a destruição das coisas, apenas o sabor e o odor permaneciam ainda muito tempo, como almas a penetrar o edifício imenso da memória.

A voz do silêncio sempre foi meu despertador pessoal, a me introduzir nas dobras, onde ficam as lembranças já esmaecidas.

Mas a roda da vida vai girando e, hoje, tenho quem me leve a viajar no tempo sem a precisão de silêncios. Netos. Netos que parecem não acreditar que avós já foram crianças, tal o empenho em querer ouvir as histórias do passado.

E eu me entrego, sem resistência.

Banho de chuva? Guerra de lama? Briga de rua? Chego a pensar que talvez exagere, mas não, as mãos esfoladas, as unhas encardidas, os joelhos ralados sempre foram a confirmação da coragem, do arrojo das ideias, das incursões destemidas mato adentro, dos sustos inevitáveis, da corrida desenfreada na hora do aperto.

É sob os alaridos de hoje que me vejo embarcar nesta nave do tempo, na companhia de uma plateia atenta e incrédula.

Quando eles se cansarem, tudo voltará ao silêncio da sesta.

Até que algo inesperado faça a memória vibrar outra vez.

Texto de autoria de Rosana Justus Braga, revisora, Curitiba (natural de Ponta Grossa), produzido no âmbito do projeto Crônicas dos Campos Gerais da Academia de Letras dos Campos Gerais (https://cronicascamposgerais.blogspot.com/).

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