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Crônicas dos Campos Gerais: Palavras em fuga

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05 de janeiro de 2022 09:00

Da Redação


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Texto de autoria de Sueli Maria Buss Fernandes, Professora aposentada, Ponta Grossa Foto: Reprodução
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Crônicas dos Campos Gerais: Palavras em fuga

Com um ano de idade, ou pouco mais, as crianças começam a balbuciar as primeiras palavras. É o início da fala, da comunicação oral que as levará ao domínio da linguagem materna. Expectativa dos pais para saber o que elas falarão antes: mamãe ou papai. É característica das meninas falar muito mais do que os meninos, é científico. Às vezes são chamadas pejorativamente de gralhas ou metralhadoras. Segundo meus pais, eu fui precoce na oralidade. Era tagarela e as palavras brincavam comigo de lenço atrás, bom barqueiro e cantigas de roda no quintal da nossa casa, na Rua Júlia Lopes. Jorravam tanto verbalmente quanto na escrita, tinha facilidade nas redações escolares. E como eu falei! E como eu escrevi! Anos e anos falando e escrevendo, num casamento perfeito entre mim e as palavras.

O tempo foi passando, vivi três quartos de um século e nunca esperei a vileza de uma traição delas, minhas companheiras de toda a vida. Não é justo o que estão fazendo comigo! Dei a elas uma mente saudável, limpa, sem nenhum morador que fosse mordaz, maldoso, pretensioso ou satírico. Ali poderiam morar eternamente, contudo, estão me abandonando sem piedade. A cada dia que passa é mais uma ou duas que fogem da minha mente. Procuro-as por horas, às vezes dias e demoro a encontrá-las. Já aconteceu de jamais saber o paradeiro de algumas. Sempre foram importantes para mim. Por que essa debandada? Para onde estão indo?

Nos momentos em que mais anseio por uma delas, vejo-a correndo pela rua, e no caminho carregando sua irmã gêmea, com a qual eu poderia contar no caso de uma desaparecer, mas a irmã, cujo nome é Sinônimo, também foge. Na fuga vão arrebanhando mais e mais, e eu ficando com a mente esvaziada, num espaço onde há lugar para milhões delas viverem em paz, em harmonia e em bom convívio. Quando alcançam a rua e encontram outras desgarradas, eu perco uma frase inteira! Isto não é justo!

Será que estão cansadas de morar neste lugar? Será que preferem viver em mentes mais jovens que a minha? Pensei colocar cartazes na rua da fuga, mas o que escrever neles, somente com as palavras remanescentes, as mais fiéis?

Consegui escrever e colei na esquina: “Procuro palavras desaparecidas há algum tempo, que me fazem muita falta. Quem as encontrar favor encaminhá-las de volta à minha mente. Preciso delas para preencher o espaço, impedir lacunas na fala e, principalmente, para evitar o ruidoso eco do vazio.”

Texto de autoria de Sueli Maria Buss Fernandes, Professora aposentada, Ponta Grossa, escrito no âmbito do projeto Crônica dos Campos Gerais da Academia de Letras dos Campos Gerais (https://cronicascamposgerais.blogspot.com/).

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