Revista aponta cartorário como delator de Lula

Ponta Grossa

08 de novembro de 2019 16:34

Da Redação


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Ele era da cozinha de Lula, mas rompeu e, anos depois, virou colaborador da Lava Jato. E entregou aos investigadores provas sobre o apartamento em São Bernardo do qual o petista diz não ser dono

Reportagem de Fabio Leite na Crusoé conta a história de Valter Sâmara, que era da “cozinha” de Lula, mas rompeu e, anos depois, virou colaborador da Lava Jato. Ele entregou aos investigadores provas sobre o apartamento em São Bernardo do Campo do qual o petista diz não ser dono.

Crusoé teve acesso a uma parte do material armazenado por Sâmara e entregue pelo advogado Paulo Reusing em março do ano passado a procuradores do Ministério Público Federal. Nele, consta um contrato de comodato assinado pelo fazendeiro com o PT, em outubro de 2003, no qual ele doava ao partido 77 peças de mobiliário, como mesas, poltronas e sofás, além de roupas de cama, para serem entregues no apartamento 121 do residencial Hill House, exatamente a unidade ao lado da casa de Lula que teria sido adquirida com propina da construtora.

Acompanhe a reportagem

Foi a bordo de um bimotor Navajo 76 da Embraer, que o ex-presidente Luiz lnácio Lula da - Silvai percorreu parte do país, em 1989, na sua primeira tentativa de alcançar o Palácio do Planalto. O jatinho particular de nove lugares fora emprestado por um fazendeiro de Ponta Grossa de quem o petista havia se tornado amigo dois anos antes, durante uma visita que fez como, deputado ao município do interior do Paraná. Dono de um cartório na, cidade, Valter Sâmara foi cativado pelo discurso do ex-líder sindical e embarcou em seu projeto.

Esteve perto, bem perto, de Lula mas três derrotas e nas duas vitórias do petista em corridas presidenciais. Gozou de certa influência indicando nomes para o governo, foi hóspede frequente da Granja do Torto a convite de Marisa e deu presentes ao casal. Tudo isso até se afastar de ambos, já no governo de Dilma Rousseff.

Trinta anos depois, o homem que ajudou Lula a se eleger presidente e que sempre reservava uma garrafa de Royal Salute, whisky escocês cuja garrafa custa hoje quase 800 reais, para brindar as visitas do antigo companheiro, distribui adesivos de apoio à Operação Lava Jato e se declara fã incondicional do maior algoz do petista, o ex-juiz federal Sergio Moro, agora ministro da Justiça. A “decepção” com o ex-presidente que virou presidiário foi tamanha que Sâmara foi além. Convencido por um amigo advogado, o fazendeiro de 82 anos decidiu colaborar com a maior operação de combate à corrupção já deflagrada no país, enviando documentos que expõem a íntima relação que mantinha com Lula. Os papéis podem ajudar a força-tarefa de Curitiba em uma das ações penais na qual o petista é réu, mas ainda não foi sentenciado.

Trata-se do caso em que Lula é acusado de corrupção passiva e lavagem de dinheiro por ter recebido, de acordo com a Procuradoria, 12,9 milhões de reais em propinas da Odebrecht por meio da compra dissimulada  de um terreno em São Paulo, para abrigar a sede de seu Instituto e de uma cobertura vizinha a sua em São Berardo do Campo, no fim de 2010. Os crimes estão narrados nas delações de ex-executivos da empreiteira, como o próprio Marcelo Odebrecht, e do ex-ministro Antonio Palocci.

| Foto: Revista Crusoé/Reprodução
 

Crusoé teve acesso a uma parte do material armazenado por Sâmara e entregue pelo advogado Paulo Reusing em março do ano passado a procuradores do Ministério Público Federal. Nele, consta um contrato de comodato assinado pelo fazendeiro com o PT, em outubro de 2003, no qual ele doava ao partido 77 peças de mobiliário, como mesas, poltronas e sofás, além de roupas de cama, para serem entregues no apartamento 121 do residencial Hill House, exatamente a unidade ao lado da casa de Lula que teria sido adquirida com propina da construtora.

A Crusoé, Sâmara afirmou que doação foi um presente para Lula, sem contrapartida, depois que ele visitou o então presidente recém-eleito em São Bernardo e viu que só havia “uma caminha horrorosa” no imóvel vizinho usado para abrigar os seguranças da família. Ele disse que logo em seguida, porém, recebeu uma carta de Paulo Okamotto, então presidente do Sebrae e atual chefe do Instituto Lula, pedindo para que assinasse um contrato de comodato com Delúbio Soares, tesoureiro do PT à época, para “regularizar a cessão dos móveis enviados” a Lula. A ideia, afirma o ex-amigo, era evitar complicações ao chefe petista. “Eu comprei e dei para ele (Lula) esses imóveis. Daí puseram lá que eu empreitei para o PT, mas não emprestei para o PT coisa nenhuma. Tanto é que se pegarem esse apartamento dele, eu vou pegar meus móveis de volta, porque não vou dar os móveis para o PT, não”, diz o fazendeiro, que gastou cerca de 140 mil reais à época com as peças adquiridas na loja Attuale, no centro de Ponta Grossa. As notas fiscais da compra e do frete até São Bernardo também foram entregues à Lava Jato.

Como a própria denúncia oferecida em dezembro de 2016 contra o petista aponta, a cobertura vizinha ao apartamento 122 de Lula foi alugada pelo PT entre 2003 e 2007 e, na sequência, pela própria Presidência da República, nos três últimos anos de mandato dele. Segundo o MPF, em setembro de 2010, três meses antes do ex-presidente deixar o cargo, o imóvel foi comprado por 504 mil reais de forma dissimulada por Glaucos da Costamarques, primo do pecuarista José Carlos Bumlai, outro amigo pessoal de Lula.

Quebras de sigilo bancário mostraram que o dinheiro envolvido na aquisição saiu de uma empresa intermediária da Odebrecht. A defesa do petista sempre negou o fato e apresentou um contrato de locação assinado com Costamarques em 2011. Mas o suposto laranja de Bumlai admitiu em depoimento a Sergio Moro, em 2017, que só começou a receber o valor do aluguel a partir de novembro de 2015, quando Lula já era investigado pela Lava Jato.

Financiador da decoração do imóvel e frequentador da segunda cobertura de Lula, Sâmara revelou a Crusoé um diálogo que reforça a tese dos procuradores contra o petista – a de que o dono do apartamento 121 é Lula. “Ela (Marisa) me disse que tinha comprado aquele apartamento”, afirmou o fazendeiro. “O apartamento do lado era o dele”. O fazendeiro de Ponta Grossa estava disposto a contar o que viu e ouviu sobre o antigo amigo aos procuradores da Lava Jato, mas acabou recuando depois que o imóvel dele onde mora sua irmã e funciona uma loja de roupas de grife foi invadido por quatro homens, em abril do ano passado, após a prisão de Lula, em uma tentativa de assalto ainda não esclarecida pela polícia. Onze pessoas foram feitas reféns e, segundo uma das vítimas, os bandidos diziam que estavam atrás dos “documentos do PT”. Reviraram a casa, mas não encontraram nada e fugiram levando alguns objetos de pequeno valor.

Aos 82 anos, Valter Sâmara é um personagem folclórico da política paranaense que transita com facilidade entre a esquerda e a direita. Foi assessor do Ministério do Planejamento nos governos de Ernesto Geisel (1974 – 1979) e João Figueiredo (1979-1985), durante o regime militar, e depois se aproximou de Lula por meio de um amigo em comum, do Sindicato dos Metalúrgicos de Ponta Grossa. A atuação como dirigente da associação de notários e registradores também lhe rendeu influencia nacional no meio político. Ele diz ter sido um dos responsáveis pela aliança do petista com o empresário mineiro José Alencar, que comporia com Lula Presidente que ajudou muito ele. Nós conversamos com ele e indicamos José Alencar. O PT não queria, mas foi isso que deu a vitória a ele”, afirmou.

Valter Sâmara assumiu o 1º Cartório de Ponta Grossa em 1987, após voltar de uma temporada no estado americano do Texas, onde adquiriu o hábito que mantém até de hoje, de não sair de casa sem o chapéu de caubói. O estilo combina com a sua segunda atividade: Sâmara cria gado em sua fazenda em Iaciara, município goiano ao norte de Brasília. Foi lá, conta ele, que manteve exilado um outro amigo político, o general paraguaio Lino Oviedo, morto em 2013. Em 2008, o fazendeiro levou Oviedo a uma audiência com Lula no Palácio do Planalto, em busca do apoio do petista à candidatura do general a presidente do Paraguai. A visita foi em vão porque o PT já tinha fechado apoio ao oposicionista Fernando Lugo, vencedor da disputa naquele ano.

O desapontamento com Lula, diz, começou quando o então amigo se aproximou de grandes empresários e políticos cuja fama ele já conhecia, em especial os também paranaenses Gilberto Carvalho, André Vargas e Paulo Bernardo. “Esse André Vargas, por exemplo, sabia de coisas enormes contra ele, do Paulo Bernardo também. Preveni o Lula diversas vezes, mas ele não me ouvia mais. Já estava muito envolvido nesses esquemas dele”, afirma Sâmara.

A chácara que Lula frequentava em Ponta Grossa fica a menos de 120 quilômetros da atual “residência” do petista, a carceragem da Polícia Federal em Curitiba. No ano passado, conta o fazendeiro, ele pediu que um conhecido da PF entregasse uma Bíblia ao ex-presidente para ajudar a recuperá-lo, mas não sabe se a entrega foi feita.

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